domingo, 5 de setembro de 2010

Das Cartas.

Finalmente consegui as cartas de Cecília Meireles e Mário de Andrade das quais citei no começo deste blog. Portanto, aqui vão:

CECÍLIA MEIRELES A MÁRIO DE ANDRADE



Rio de Janeiro, 5 de março de 1943.


Caro Mário,


Console-se de suas apoquentações de enfermo pensando que eu também aqui estou cheia de nevralgias! Embora não saiba se é consolo suficiente...

Logo que recebi seu bilhete, pensei num caminho talvez melhor que o Dip: o de “Livros de Portugal” – onde há uma gente simpática e mais eficiente. Falei logo para lá, e facilitam a remessa de seus livros junto com os da casa, talvez por um navio espanhol – está, neste momento, na Argentina.

Disse-me o sr. Souza Pinto – a quem ficará bem você agradecer – que, por você e por mim, faria isso. Mas que me mandasse já o pacote, pois estas navegações de agora são, como você sabe, imprevistas.

Quanto às rosas, Mário, não têm propriamente o meu nome, mas o de uma homônima! – é a única situação de minha vida em que “faço farol à custa alheia”! Mas dizem que são flores lindas. Já me deram mudas, que não vingaram aqui.

Fique bom e mande-me os livros com a carta anódina! Todos os votos e saudade de



Cecília.



(anódino: paliativo)







MÁRIO DE ANDRADE A CECÍLIA MEIRELES



São Paulo, 13 de março de 1943.


Cecília Meireles,


A sua confissão é uma das modéstias mais irritantemente frágeis que jamais escutei. Não houve, não há nem pode haver outra Cecília Meireles neste mundo. Parece até absurdo que você ignore um fenômeno lingüístico chamado homofonia! Imagino bem que ceciliameirelizem por aí algumas nuvens inconsistentes, mas Cecília Meireles só existe uma.

Só, capaz de abençoar a beleza e a felicidade de uma rosa. É você. Tem de ser você, não pode ser senão você.

Ora, minha amiga Cecília Meireles, completa, integral e exclusivamente Rosa Cecília Meireles, pois será que a sua modéstia errada lhe tenha escurecido tanto a psicologia a ponto de você não imaginar que eu não tivesse imaginado os casos burlescos da homofonia!!!

Mas as homofonias e os cacófatos só existem nos cérebros plácidos dos ginasianos e dos acadêmicos. Só existe uma Rosa, só existe uma Cecília, só existe uma Meireles, é a Rosa Cecília Meireles, una e trina em minha adoração afetuosíssima. A quem devo, neste momento, mais um favor.



Mário de Andrade



(burlesco: cômico)




In: MEIRELES, Cecília – Cecília e Mário, São Paulo, Ed. Nova


Fronteira, 1998.

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